Tratamento água e esgoto

Quando perguntado sobre o tratamento de água e esgoto da cidade de São Luiz do Paraitinga, Alexandre Medeiros, o Chinica, relembra que seu pai contava que durante a década de 1960 a água em São Luiz não era cobrada: vinha por encanamento do Ribeirão dos Pimentas e era redistribuída por chafarizes, onde as pessoas recolhiam água com baldes para abastecer suas casas e o esgoto ainda corria a céu aberto na cidade. 
 

Foi o prefeito Nelson Ferreira Pinto (1960 a 1963) que realizou a captação do esgoto, ação que, por um lado, trouxe benefício para a população em relação à sua saúde, mas por outro criou um novo desafio: a captação final do esgoto era destinada no rio. 
 

Naqueles anos atitudes como essa eram comuns e desviar o esgoto para longe do contato com as pessoas foi um passo importante no que diz respeito ao saneamento básico da época. Em seguida, chegou também como parte do processo de urbanização da cidade de São Luiz o calçamento da parte central da cidade, realizado pelo então prefeito Dito do Vena (1968 a 1972). Mas foi o prefeito Miguel de Almeida (1973 a 1976) o responsável por trazer a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (SABESP) para São Luiz do Paraitinga. 
 

Chinica conta que a primeira iniciativa da companhia foi perfurar dois poços artesianos, um onde hoje é o Camping do Saci e a Estação Elevatória de Esgoto do São Benedito e outro onde é hoje o Elevatória de Esgoto João Roman. Foi encontrada uma água bonita, límpida e a levaram para análise. Porém, o resultado de salubridade da água deu impróprio para consumo, infelizmente, por conter uma alta taxa de chumbo. 
 

A solução foi implementar na cidade, em meados da década de 1980, uma Estação de Tratamento de Água, a ETA. Uma curiosidade interessante é que a obra só foi autorizada pela Câmara dos Vereadores da época com a condição de ser construída acima do cemitério do Benfica, “para não beber água de defunto”, e por isso a ETA ficou longe do centro. 
 

Hoje, a população de São Luiz aumentou e a estação de tratamento de água ainda é a mesma, embora agora dotada de tecnologia mais avançada. No início da década de 1990, os funcionários da ETA faziam a análise da água a cada hora. Hoje, com a automação, a análise é realizada de dez em dez segundos. Naquela época, eram necessários cinco funcionários trabalhando para cobrir os turnos de 24 horas. Nos dias atuais, existem apenas três funcionários e a qualidade da água é melhor do que antes. A água tratada é bombeada para o centro, para o Alto do Cruzeiro e distribuída por gravidade para toda a cidade. 
 

Nos anos 2000, quando São Luiz do Paraitinga se torna Estância Turística, a população flutuante da cidade aumenta, assim como a demanda por água. Atualmente, a SABESP trata todo o esgoto captado, mas isso não quer dizer que todas as casas têm conexão com a caixa de inspeção (geralmente localizada na frente de cada casa). Na verdade, é responsabilidade dos moradores colocar a caixa e a SABESP é responsável somente por fazer a conexão da caixa com o coletor-tronco. 
 

O coletor-tronco é responsável por levar o esgoto a cinco quilômetros rio abaixo, onde está localizado uma lagoa de decantação. A água passa por um processo de oxigenação no qual a massa que sobra vai para os leitos de secagem onde a parte líquida é drenada. Antes dessa água retornar ao Rio Paraitinga, ela recebe hipoclorito na lagoa de decantação para matar todas as bactérias. Quem fiscaliza esse processo é a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (CETESB).

 

Pomar na margem do Paraitinga

Chicão Colombano lembra que quando tinha três anos de idade faltou água em sua casa. Então sua mãe decidiu lavar roupa no rio com outras mulheres e o levou para a beira do Paraitinga. Ali ele viu meninos maiores brincando no rio e com eles havia sacos de jabuticaba colhidas no pé. 

Chicão, criança, ficou morrendo de vontade de comer aquela fruta. Essa experiência de infância o incentivou, quando adulto, a cultivar um pomar ao longo da margem do Rio Paraitinga para que todas as pessoas da comunidade que passassem por ali tivessem acesso às arvores, suas frutas e sementes. Tomou gosto por coletar sementes, cultivar mudas e doá-las para quem quisesse receber e cuidar. Hoje tem uma diversidade de espécies de árvores frutíferas, de madeira, de flores, plantas e hortaliças. 

Chicão acredita que a manutenção desse acervo de sementes é muito importante para a qualidade de vida das próximas gerações. Em tempos passados, ele conta que não eram todas as pessoas que tinham acesso livre a esses diferentes tipos de espécies de frutas. Muitas vezes essa possibilidade era privilégio dos que tinham mais condição financeira, portanto, sua maior intenção ao plantar um pomar na área pública de São Luiz é facilitar e socializar o acesso de frutas, sementes e mudas à população. Não há quem não tenha visto os bancos que por ele foram montados ao longo da margem do rio como um convite para sentar e apreciar a beira e seu entorno. 

Para ele, a transmissão de conhecimentos ambientais para as crianças é fundamental, pois estas gostam de interagir com o rio, de pescar, gostam das plantas e adoram ajudar a plantar. Educar as crianças a criar o gosto pela natureza, por suas sementes, plantas, flores, pássaros e pelo rio é um processo que pode envolver famílias e amigos para participarem de plantios e incentivarem a preservação e usufruto da natureza. Uvaia, pitanga, abacate manteiga, banana, goiaba, araçá branco, araçá vermelho, romã, nêspera, limão, laranja, cana: o desejo de Chicão é multiplicar sementes e mudas e perpetuar essas espécies de frutíferas.

 

Plantio de mudas e hortas urbanas

Ações voluntárias de plantio e cultivo de mudas de plantas e árvores, assim como quintais e hortas formados em espaços públicos, saltam aos olhos de quem anda na cidade de São Luiz do Paraitinga. São pessoas como Seu Paiva, Bia, Jatil, Bizuca, Pinho, Dona Mariquinha, Chicão Colombano, Paulo Ramos, Dona Benedita, entre tantos outros que prestam esse serviço comunitário e se empenham em oferecer o bem-estar para toda a comunidade luizense ao revitalizar as beiras de rio e os logradouros públicos de maneira que todos usufruam dos espaços ao ar livre. 

O acesso à terra é uma das lutas mais importantes do Brasil contemporâneo. Fazer uso do espaço público como bem comum, especialmente através da produção de alimentos, é uma maneira de manter viva a relação de produção com a terra e a possibilidade de a comunidade exercer seus saberes enriquecendo a alimentação de diferentes famílias, sem a necessidade de comprar em um supermercado. É possível colher uma couve, uma abóbora, um manjericão, uma fruta, uma berinjela ou mesmo usufruir da sombra de uma árvore em um momento de parada quando se está na rua. 

A experiência de hortas urbanas, em maior escala, é uma alternativa de produção e acesso a alimentos saudáveis, de engajamento comunitário, da valorização de atitudes solidárias, da possibilidade de produção de compostos biológicos, além de uma contribuição econômica para a família de quem produz e para a rede de famílias que se beneficiam da produção. Muitas famílias têm o hábito de plantar e retomam os espaços de cultivo que a cidade ocupou.

Mesmo que em pequena escala, é importante ressaltar o incremento da biodiversidade local através de iniciativas como o plantio de mudas e a criação de hortas urbanas. Tornam-se espaços de maior convívio social – mais verdes, diversos, frescos e agradáveis –, com maior interação entre fauna e flora, especialmente de insetos que contribuem na polinização, além de serem propícios para desenvolver trabalhos relacionados à educação ambiental junto aos alunos das escolas. São Luiz do Paraitinga tem uma lei que reconhece as hortas comunitárias.

 

Recuperação de nascentes

A família Rocha tem muita história para contar. Há 60 anos morando no Bairro do Benfica, presenciaram a mudança dos tempos e conhecem o valor da água, da terra e do convívio familiar. Moram todos em um mesmo terreno na zona urbana e há três anos decidiram restaurar nove nascentes de águas, que ficam no alto do Morro da Cueca.

As nascentes formam o ribeirão do antigo "lava-pés", que passa onde é hoje a Câmara Municipal da cidade, e deságua no rio Paraitinga. Essas nascentes abastecem todas as casas desta vila familiar e em 2010 seu volume contribuiu para a distribuição de água potável para toda a cidade por ocasião da grande enchente.

 

Bozó conta que, quando criança, as ruas de acesso para o Bairro do Benfica não tinham luz elétrica, rede de esgoto ou calçamento. Era tudo escuro, só havia duas ou três casas por ali e era uma área de terra, barranco e muito bambuzeiro. Com o tempo, iniciou-se o processo de urbanização do bairro, beneficiando a população com as benfeitorias necessárias. Até então, a água de uso diário de sua família era retirada do Ribeirão do Lava Pés, que passa ao lado de sua casa e era limpo. 

Bozó conta que as crianças brincavam no ribeirão, onde havia uma ponte para as pessoas atravessarem quando vinham do Bairro dos Pimentas, do Orris, do Rio Acima ou do Batido. Os cavaleiros amarravam ali os seus cavalos, tiravam suas botinas e lavavam os pés para ir à cidade, por isso o Ribeirão do Lava Pés ganhou esse nome. 

Com o processo de urbanização e o aumento da população, o ribeirão foi ficando poluído, as ruas foram calçadas e o curso d’água, canalizado. Ao conquistarem terras mais acima de sua propriedade, os Rocha garantiram a água da família através das nascentes do Ribeirão Lava Pés, localizadas no Morro da Cueca. 

Como o bem mais precioso de uma terra é a água, Bozó e seus irmãos decidiram por cercar as nascentes, que há muito tempo estavam desmatadas, e restaurar o seu entorno com mudas de árvores para garantir a qualidade e a quantidade de água para a sua família e a comunidade. 

Em dois anos de restauração, a água aumentou e recuperou sua vazão. O cuidado com as nascentes é constante para limpar, para não deixar a criação de animais pisotear, não secar ou desbarrancar. Plantaram muitas árvores frutíferas – como ameixa, ingá e jataí – para aumentar a produção de frutas e atrair bichos e passarinhos como jacu, sabiá, bem-te-vi, juruti. 

Com a água recuperada, eles conseguem apenas com um cano de água distribuir e abastecer as caixas de nove famílias para o uso doméstico, para usar na criação de cavalos, porcos e galinhas, para aguar a horta e ainda sobra água que jorra por ali diariamente. Enquanto a água falta em grandes cidades e há quem lute por sua privatização, há também quem cuide das nascentes como um bem coletivo.

 

Ribeirão dos Pimentas

O Ribeirão dos Pimentas é pouco conhecido, mas um importante afluente do Rio Paraitinga. Ele tem esse nome porque sua nascente está localizada no Bairro dos Pimentas e seu corpo d´água atravessa o bairro. Sua nascente à foz tem cerca de três quilômetros de extensão. A foz, que fica bem próxima à cidade e passa despercebida, está localizada logo depois da entrada do bairro, embaixo de uma ponte, e deságua ali no Rio Paraitinga.
 
Até o início da década de 1960, as águas desse ribeirão abasteceram a cidade de São Luiz do Paraitinga. É possível ver a barragem de pedras até hoje. Ela foi construída para armazenar água através da formação de um grande poço e funcionou até meados dos anos 1970. 
 
A água era captada e desviada para encher os poços da cidade, onde estavam localizados os chafarizes nos quais as pessoas abasteciam suas casas com latas e baldes d´água. Três deles estão na cidade até hoje: o chafariz em frente à Santa Casa, o chafariz no Largo do Teatro, abaixo da Igreja do Rosário, em frente à casa de Benito Campos e o chafariz ao lado da ponte principal, na entrada da cidade. Dá para imaginar a quantidade de água que esse ribeirão produzia para abastecer a cidade naquela época, para atender a uma população urbana de aproximadamente 1.500 pessoas, já que a maior parte dos munícipes vivia na zona rural.
 
Até o início da década de 1980, seus tombos d´água formavam poços fundos onde a moçada ia brincar e se banhar no ribeirão. Hoje, sua nascente está localizada dentro de uma propriedade da Suzano Papel e Celulose, que planta eucalipto para a produção de celulose para a fabricação de papel. Grande parte da mata ciliar do Ribeirão dos Pimentas ao longo de sua extensão foi desmatada, apenas alguns trechos estão preservados e lembram a paisagem da Mata Atlântica nesses fragmentos. 
 
Nem todas as famílias que vivem no Bairro dos Pimentas têm condições de instalar em suas casas as caixas de inspeção necessárias para o tratamento de esgoto. Por essa razão, o esgoto doméstico acaba sendo despejado em seu corpo d´água. Em muitos pontos do ribeirão a água está represada, o que faz com que o volume de água diminua em alguns trechos e seque em outros.
 
Dada a importância histórica, social e ambiental desse ribeirão e o seu curto trajeto, é possível pensar na possibilidade da restauração de suas margens e na revitalização de suas águas através de uma parceria articulada entre poder público, iniciativa privada e sociedade civil. Sonhar é possível, agir é necessário.

 

A presença do eucalipto

O Bairro dos Caetanos está localizado na Rodovia Nelson Ferreira Pinto, na altura do quilômetro 8.5, próximo ao Ribeirão da Serra Quebra Cangalha, importante afluente do Rio Paraitinga. Ali está localizada a EMEF Joaquim Ribeiro de Almeida, logo à frente de uma grande plantação de eucalipto. 

O historiador Marcelo Toledo conta que, antes de se tornar uma referência na produção de eucalipto, essa região era uma fazenda de pecuária leiteira e cultivo de verduras pertencente ao Seu Zinho Mineiro. A fazenda era grande e havia bastante gente trabalhando por lá. Em 1971 uma empresa de eucalipto fez uma oferta de compra a Seu Zinho, que já não estava conseguindo manter a fazenda. Com a chegada da empresa, muitas casas foram construídas e o bairro se tornou ainda mais populoso com as pessoas que chegaram para trabalhar na plantação de eucalipto. 

A empresa absorveu a mão de obra da antiga fazenda e incorporou novos trabalhadores, que permaneceram morando por ali por volta de oito anos, período que marcou o auge da primeira fase de produção, venda e lucro do novo negócio da região. 

Muitos trabalhadores não se adaptaram com o esquema empresarial, pois o lucro não respeitava os dias santos e todos ali eram católicos. Quando aconteceu o primeiro corte de eucalipto, a empresa logo começou a dispensar os trabalhadores, pois não precisaria mais da força de trabalho das pessoas a partir da fase de crescimento das mudas. Alguns trabalhadores ficaram para cuidar e limpar a plantação. No momento do corte, a empresa contratava trabalhadores que cortavam os troncos com motosserra, já que a empresa ainda não possuía máquinas. 

Como o processo de produção era rudimentar e não havia equipamento de proteção individual, acidentes de trabalho passaram a ser comuns, como cortes e machucados com a motosserra e intoxicação de trabalhadores por veneno durante o plantio. 

O eucalipto é considerado uma árvore exótica, natural da Austrália, e ocupa cerca de 1,5% (Mapbiomas, 2021) da área total do município de São Luiz do Paraitinga. Existe certo consenso na literatura técnica e científica de que o eucalipto, se bem manejado, gera menos impactos ambientais que a pastagem, pois as árvores protegem mais o solo da erosão, permitem mais infiltração de água e têm funções ecológicas mais favoráveis à regeneração natural da vegetação nativa (Farinaci, 2013). Mas a larga escala das plantações, o uso excessivo de agrotóxicos, o grande volume de caminhões transportando toras, cruzando vilarejos e estradas estreitas, entre outros fatores, geram grandes impactos socioambientais. Além disso, a taxa de empregos é baixa e, geralmente, quem vem plantar as mudas são funcionários de empresas sublocadas. 


Em quase quarenta anos de plantios ininterruptos de monocultivos de eucaliptos e uso de agrotóxicos em seu processo de produção, é possível observar diversos impactos negativos em bairros da zona rural de São Luiz do Paraitinga, especialmente no Bairro do Caetanos e Bairro do Alvarengas. Ribeirões antes caudalosos estão com a mata ciliar suprimida, assoreados, com o volume hídrico baixo e contaminados pelo uso de agrotóxicos. 


Em época de chuva, a água leva para o leito de rios e córregos o agrotóxico que é aplicado nas plantações, o que causa sério impacto na saúde do ambiente e da população local, especialmente das famílias que arrendam terras para a produção de eucalipto e têm a sua reserva de água nessas áreas. 


Para controlar a expansão do eucalipto no município, o Movimento em Defesa dos Pequenos Agricultores de São Luiz do Paraitinga impetrou uma Ação Civil Pública. Como consequência, em março de 2008 o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ/SP) concedeu uma liminar que, pela primeira vez na história, freou o plantio de eucalipto no município de São Luiz do Paraitinga. A partir de então, as grandes empresas de exploração de eucalipto que atuam na região devem demonstrar com maior rigor seus cuidados para amenizar ou mesmo eliminar impactos sociais e ambientais.