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Ribeirão do Turvo

Seção interação com a comunidade

Papo de Pescadora

Dona Anésia Dias foi criada na região conhecida como Sertão de Paraibuna, no Rio da Tristeza. Seu pai ia pescar e levava os filhos junto desde a idade em que eles aguentavam andar. A criançada pescava mesmo: Dona Anésia lembra que tinha muita sorte na vara. Conta que a família não tinha o que comer, portanto a mistura era o peixe. Naquele tempo, o costume do pessoal era caçar bicho do mato. Foram criados assim, com as coisas do mato. Tinha 12 anos quando veio para a região do Ribeirão do Turvo, em São Luiz do Paraitinga, e ali continuam a pescar até hoje. 

 

Ela conta uma história de uma criança que estava com um bornal cheio de peixe, só com peixões grandes. Dali a pouco grudou um grandão e deu uma calibrada na vara. Ela tentou se segurar no barranco, mas caiu na água e foi parar no meio do rio, no fundo da água. Diz que Deus não a deixou, pois ela não engoliu nenhuma gota de água, só entrou um pouquinho de água no ouvido. Do fundo d´água retornou e pensou: "Mas estou perdendo todo o peixe, quando o pai voltar vai ficar bravo comigo porque que perdi todo peixe!". Decidida, agarrou o peixe ainda na água. Virou para o lado do barranco de onde caiu, boiou e foi dar na beira do barranco. Agarrou a terra e saiu da água, toda encharcada. 

 

Ela recorda que, naquela época, a roupa da criançada era feita de saco de algodão trançado. Sua mãe costurava o saco tingido como um vestidinho, cortava, fazia uma gola e vestia. Aí chegou seu pai com seu compadre, a viu na beira do barranco com o vestidinho todo molhado e falou: "Ô, compadre, hoje nós temos bastante mistura pra comer, olha lá, o tamanho do veado!”. O compadre deu um grito para virar a pontaria para o bicho e a pequena Anésia se escondeu. Conta que ficou encolhidinha de frio, tremendo no meio do sapezeiro. E ouviu o compadre falar para ela: "Eita! Escapou de morrer de uma coisa e quase morreu de outra, menina!".

 

Dona Anésia diz que gosta mesmo é da vara de bambuzinho porque se acostumou a ela desde criança. E não pesca com outra qualidade de isca que não seja a minhoca: “Tem gente que não gosta de pescar com isca, tem medo, mas eu não!”. 

 

Conta que o Ribeirão do Turvo era muito fundo e bom de pescar. Quando chegaram na região havia muito peixe como traíras, taiaba ou cachorro magro, lambari e cará. Hoje é diferente e ela associa a diminuição dos peixes ao plantio de eucalipto na beira do Ribeirão do Turvo. Mesmo assim, quando está calor, vai até a beira do ribeirão duas vezes por semana, mas diz não pegar nada por lá: vai só para se divertir mesmo. Quando chove, pega uns peixinhos, mas diz que têm gosto de lodo. Conforme o lugar em que vai pescar, onde era rio, hoje está seco, não tem mais água em lugar nenhum. “Muitas minas secaram, por isso não tem a água no ribeirão”, diz Dona Anésia. “Parece que o rio da Tristeza, hoje, é aqui.”

 
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Bairro São Sebastião

O Bairro São Sebastião é conhecido como local de maior produção agrícola no município de São Luiz do Paraitinga. Por esse motivo, em comemoração ao 250° aniversário da cidade, em 2019, a EMEF João Gonçalves dos Santos organizou uma grande roda de conversa com integrantes de sua comunidade escolar, convidados a falar de suas histórias de vida e modos de produção. Uma das convidadas, Silvia Bento, mãe de alunas e produtora familiar, fez um depoimento cativante ao comparar o cuidado que tem com as plantas que produz aos cuidados que dedica às suas filhas. Ela disse que cuidar de uma plantinha é como cuidar de um filho, desde que é semente: é preciso zelo. Preparar a terra, adubá-la, plantar a mudinha, molhar no início da manhã e ao final da tarde. Arrumar um filho para ir à escola, dar banho e dar de comer, agir com delicadeza, carinho e firmeza. Cuidar e proteger, a receita da abundância. Um ato de amor. 

 

O plantio de roças de milho, feijão, abóbora, mandioca e amendoim certamente é uma herança indígena. Mais tardiamente, o plantio de hortaliças também passa a estar presente no modo de vida da cultura caipira. O Bairro do São Sebastião por si só é um potencial educativo capaz de se desdobrar em diversas camadas de estudos e pesquisas. Está localizado na Bacia do Ribeirão do Turvo, tem grandes e pequenas propriedades de produção agropecuária e tem como maior atividade a produção agrícola, tanto convencional (com uso controlado de fertilizantes e agrotóxicos) como orgânica (que preza pela cobertura do solo e a produção de nutrientes através de microrganismos saudáveis). 

 

A produção de alimentos do Bairro São Sebastião é destinada principalmente para o Mercatau, em Taubaté, para mercados na cidade de São Paulo e para o mercado local de São Luiz do Paraitinga. Segundo o Plano Diretor Municipal, o Bairro São Sebastião é a localidade que mais gera renda e empregos no município de São Luiz do Paraitinga. 

 

Fazer com que crianças e jovens entrem em contato com a terra e compreendam a sua importância para o ciclo da vida é fundamental, especialmente para aqueles que vivem em centros urbanos e perderam o vínculo com a origem dos alimentos. Muitas das famílias de alunos da zona rural são produtores rurais e eles mesmos têm participação no ciclo de produção de alimentos. 

 

Atualmente, 30% da merenda municipal é comprada de produtores familiares locais, orgânicos e convencionais, através do Plano Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). As crianças têm acesso a alimentos de alta qualidade e valor nutricional, que passam a fazer parte do seu dia a dia e sugerem uma reeducação alimentar para aqueles que não têm o hábito de comer certos alimentos. As merendeiras também entram em contato com novas variedades de alimentos e aprendem a aproveitá-las da melhor maneira possível. A relação do alimento com a saúde é direta e o trabalho da nutricionista da prefeitura de São Luiz, Natália Irina, muito contribui nesse sentido. Algumas doenças, como obesidade, diabetes e pressão alta, estão relacionadas com o alto consumo de sal, açúcar e óleo (presentes especialmente nos alimentos ultraprocessados com alto teor de sódio, açúcares e gorduras trans). A relação do alimento com o consumo e a produção de resíduos sólidos também é um problema que merece ser equacionado.

 
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