Ribeirão do Chapéu

O Ribeirão do Chapéu é o principal afluente do Rio Paraitinga. Tem sua nascente e foz dentro do território de São Luiz e percorre um trajeto serpenteado estimado em mais de 30 quilômetros, formando várzeas, corredeiras e tombos d´água. E o principal afluente do Rio do Chapéu é o Ribeirão do Pinga, formado pelo Sertão Grande e Sertãozinho. É reconhecido como um verdadeiro rio luizense, por nascer e morrer dentro do município.

A micro bacia do Ribeirão do Chapéu é considerada uma área prioritária para a restauração florestal pelo Comitê de Bacias do Rio Paraíba do Sul, pois é reconhecida como o berço das águas do maior corpo d´água do estado, o Rio Paraíba do Sul.

 

Ocupação e o distrito de Catuçaba

A região do Chapéu é uma das ocupações oficiais mais antigas da região. As primeiras sesmarias concedidas pela coroa portuguesa aos desbravadores dos “sertões do Parahytinga” situam-se nessa bacia, que já havia sido mapeada pelo Sargento Mor Manuel Antônio de Carvalho antes mesmo da fundação oficial da Vila Parahytinga. O percurso das águas foi o principal acesso aos territórios cobiçados pelos colonizadores e a formulação de mapas foram estratégias importantíssimas de ocupação e legitimação de posse dessas terras. 

 

A sesmaria do Chapéu, uma das maiores em extensão de terras da região, foi conquistada pelo Sargento Mor como prêmio por seu esforço na criação da povoação do Parahytinga. As terras que escolheu para si tinham uma ótima localização por estarem próxima à vila e irrigada em toda a sua extensão pelo Ribeirão do Chapéu e seus afluentes. 

Segundo o pesquisador Allan Monteiro (2012), nessa época havia dificuldade em demarcar limites sobre essas terras. Mas, no caso da sesmaria do Chapéu, há documentação que informa quais eram as referências que determinavam as divisas de propriedades daquela região, tais como o uso do solo (como a formação de roçados), as terras vizinhas (quem era vizinho de quem), acidentes geográficos (morro, ribeirão, vertentes, campo, várzea), elementos da natureza (como vegetação nativa, um cedro, uma paineira) e marcos de madeira fincados no chão durante a medição de terras.

Dois processos caracterizam a mudança de paisagem de ocupação de terras da região do Chapéu ao longo de sua história: o processo de fragmentação, através da divisão de terras por sucessão hereditária; e o processo de concentração de terras em períodos de maior vigor econômico na região, como o auge dos ciclos econômicos do café e da pecuária. A cada transmissão, seja por sucessão hereditária ou venda de terras, as referências de demarcação deixavam de fazer sentido para as gerações sucessoras, que redefiniam as dimensões e limites de suas propriedades através de acordos ou conflitos com seus vizinhos. Hoje, o Bairro do Chapéu é parte do distrito de Catuçaba, e desde 1772 suas divisões administrativas pouco mudaram.

 

O surgimento de Catuçaba (que em língua Tupi significa “terra boa” ou “lugar bom”) também está associado à doação de uma sesmaria, neste caso para José Gomes de Gouvêa e Silva, que ocupou essas terras por volta de 1783. 

O sistema de sesmaria durou até meados de 1822 e, em 1850, entrou em vigor a Lei de Terras, por meio da qual a posse de terras se daria apenas mediante pagamento, o que fortaleceu a fase de concentração fundiária mudando a paisagem e o tipo de ocupação na região. Nessa ocasião, a maioria das famílias que vivam na região foi expulsa após a Lei de Terras ou estabeleceu vínculos com seus novos proprietários como meeiros.

 

Era comum propriedades particulares abrigarem famílias não proprietárias e, ao longo do tempo, foram surgindo fazendas, sítios e bairros próximos às margens do Rio do Chapéu. Propriedades como São Pedro, Pinheirinho, São José, da Grama e Rio Claro são importantes fazendas construídas na época do café. Os bairros da região têm como nome de origem a relação de parentesco de algumas famílias, como a Cachoeira dos Pintos, Bairro dos Briet e dos Pavret, esses últimos indicando a imigração de franceses para a região. 

 

Hoje, há uma forte presença da religiosidade popular ao longo do percurso do Rio do Chapéu. Em cada bairro ou localidade há capelas que acolhem os santos(as) padroeiros(as). Em geral, essas capelas são mantidas por produtores familiares da região. 

 

As festas de destaque são: São Pedro, no distrito de Catuçaba; Nosso Senhor de Bom Jesus, no Bairro do Chapéu Grande; e de Nossa Senhora Aparecida, no Bairro de Ribeirão Claro, com celebração de missas, procissões, novenas, quermesses, distribuição de afogado e a presença de grupos de motivação religiosa como a Cavalhada, o Moçambique e a Congada.

 

Usina Hidrelétrica

A safra agrícola de São Luiz do Paraitinga permitiu a realização de melhorias, principalmente na zona urbana. Uma delas foi a construção de uma usina que trouxe a luz elétrica à cidade. A usina hidrelétrica de São Luiz do Paraitinga começou a ser construída em 1923, depois que um grupo de fazendeiros e comerciantes se cotizou para construí-la, contando com uma pequena verba da Prefeitura. Foi aproveitada uma garganta de pedra do Rio do Chapéu, a 5 quilômetros da cidade, próxima da estrada que dá acesso à Ubatuba. A área do terreno ocupado pela hidroelétrica tinha cerca de três alqueires, incluindo o lago da represa. 
   

As instalações se compunham de uma represa, feita de pedra e cimento e um aqueduto, feito do mesmo material, para levar as águas até a turbina. Esta, junto com um gerador e outros componentes, foi instalada numa construção que ficou conhecida como Casa da Força, a uns 100 metros a jusante. O responsável pelas obras foi o engenheiro Jorge de Mello. A turbina e o gerador eram da marca Siemens-Schuckert, de procedência alemã, com 55 KWA de potência, sendo suficiente para fornecer toda energia elétrica de que São Luiz do Paraitinga necessitava.
   

"Em dois anos e alguns meses, com muito sacrifício pela falta de dinheiro e de estradas, estavam prontas a represa e a posteação, bem como assentadas as máquinas, enquanto as residências na cidade que se preparavam para receber esse melhoramento. A inauguração da luz elétrica se deu no dia 6 de janeiro de 1925. Durante o dia ligaram a luz, a título experimental. Às 20h foi ligada definitivamente. Houve espocar de foguetes feitos na própria terra, retreta na Praça da Matriz e, às 22h horas, baile na residência de Romilo Guimarães, coletor estadual [responsável pela arrecadação de impostos] e um dos financiadores da obra, num dos sobrados da praça. Tão despretensiosa era nossa luz, que só havia força e luz durante a noite, das 19 às 5 horas, no verão; e das 18 às 6 horas no tempo de inverno". 
   

Em face do crescimento da cidade, provocado principalmente pelo êxodo rural, já no início da década de 1940 a energia produzida pela Usina do Chapéu não era suficiente nem mesmo para iluminar a cidade com eficiência. Cada vez mais o sistema era desligado por excesso de demanda, provocando constantes apagões. Até que em 1948, depois de muitos protestos dos moradores, a Prefeitura resolveu comprar a energia elétrica produzida pela Usina Félix Guisard, em Redenção da Serra pela Companhia Taubaté Industrial, que já abastecia as cidades de Natividade da Serra, Redenção da Serra e Ubatuba.
   

Depois disso, durante alguns anos o maquinário da usina de São Luiz do Paraitinga permaneceu intacto até se transformar em sucata pela ação do tempo, de furtos e do vandalismo. A Companhia Elétrica (depois energética) de São Paulo (CESP) se tornou proprietária do local em 1970, quando passou a ser distribuidora de energia elétrica no município. Em 1984, essa empresa estatal promoveu a destruição total de máquinas e levou as peças que restavam para lugar incerto e não sabido. Quem olhar da ponte do Chapéu, na altura do quilômetro 46 da Rodovia Osvaldo Cruz, poderá observar o que resta dessa usina: de um lado, a represa meio danificada e do outro, os restos do aqueduto. Tudo no mais completo abandono.
 

Do livro “Imperial São Luiz do Paraitinga”, páginas 40 e 41.